Filosofia de bar, de esquina, de andarilho, literária, musical, popular e simples.

Pensamento libertário. Opinião é poder.

Pensar é poder

Debater é poder multiplicado.

Impor é fraqueza. 

 

"O provérvio que diz: não sei de nada, cada um trata de si"

Manifesto pela liberdade

         Imagino que as pessoas dediquem sempre algum momento para fazer análises a respeito do mundo em que vivem pelo menos uma vez por dia, uma vez por semana, ou uma vez por mês, dependendo da vontade de pensar de cada um. Sim, por que pensar dá trabalho, e muitas vezes te torna incompreendido ou chato. Com certeza é muito mais fácil assistir uma série, ou passar os dias como um zumbi teleguiado a entreter-se com os olhos afundados dentro do iphone navegando na internet, essa invenção incrível, libertadora, mas que a cada dia toma mais tempo e vida, vida real, de todos nós.

Entretanto, em tempos que ainda são de violações das liberdades individuais e direitos humanos, atentados terroristas na Europa, confronto na Síria,  desigualdade galopante no mundo “civilizado  e globalizado” e, sobretudo por ser uma característica intrínseca ao fato de sermos humanos, somos obrigados a pensar. Ainda que a nação “guardiã da liberdade do mundo” tenha escolhido como presidente e, consequentemente como homem mais poderoso do mundo, um personagem que promete erguer muros, ignorar que o planeta deve ser preservado e que entre outras mazelas parecia estar superado no século XXI, nós ainda pensamos!

Em meio ao crescente desprezo pela política e seus representantes observado em todo mundo, nota-se o reaparecimento e popularização de governantes que parecem vindos do passado, um passado não muito distante, e que ainda amedronta. Parece que o mundo caminha para o caos. Será que é para lá mesmo que ele vai?  

         Vamos retroceder um pouco na história até chegarmos à revolução agrícola, cerca de doze mil anos atrás. Nós, os humanos, éramos caçadores coletores antes de aprendermos a plantar e criar animais. A humanidade vivia em constante nomadismo. Nossos ancestrais viviam em deslocamento para onde houvesse comida, e isso variava de acordo com as estações. Entretanto, estávamos no fim da era de gelo, as zonas de caça diminuíam, transformavam-se em desertos. O estilo de vida migratório tornara-se perigoso, e áreas próximas a rios e lagos começaram a ser habitadas. E assim conseguirmos atingir a revolução que nos tirou do nomadismo e nos trouxe a organização em sociedade, trazendo consigo as primeiras cidades.

O embrião do mundo no qual vivemos hoje, veio do caos e da adaptação. O meio de vida conhecido anteriormente teve de ser abandonado gradativamente, e a partir das organizações sociais passaram a existir burocratas, comerciantes, artistas e toda uma estrutura nova que ia além da obrigação de simplesmente lutar pelo alimento e água de cada dia. Tudo isso não aconteceu em vinte ou cinquenta anos, levou muito mais, e as adaptações aconteceram. Aqui estou eu de frente ao meu laptop para provar.

         Doze mil anos se passaram e muita coisa aconteceu nesse tempo. Sem sequer arranhar a totalidade e complexidade de cultura produzida pela humanidade podemos citar: Revolução agrícola, metais, mesopotâmia, sumérios, Babilônia, Egito, Grécia, Roma, impérios nasceram e caíram, dinastias ascenderam e morreram na Ásia, Feudalismo, Renascentismo, mercantilismo, descoberta das Américas, iluminismo, revolução industrial, revolução francesa, guerras napoleônicas, capitalismo, comunismo, dois conflitos mundiais, bomba nuclear, direitos humanos, exploração espacial e, por último, com possivelmente o maior poder transformador para o bem e o mal: desenvolvimento tecnológico e internet.

          Acredito que percebam que não citei religião, porém ela estava presente nos pensamentos e atos dos seres humanos que viveram em todas as épocas citadas acima. O culto a divindades é bem anterior à revolução agrícola.

          Em nome de deuses, cultos e símbolos, guerras foram e são travadas, pessoas foram e são executadas, e de alguma forma as religiões sempre estiveram e estão ativamente presentes em quase todas as sociedades e combates. A religião existe desde a pré-história, portanto é a maior e mais antiga manifestação cultural humana.

      As religiões ditaram os rumos das sociedades servindo como o principal meio de se fazer política. A noção de que religião e política devem andar separadas é recente, e nem com imensa boa vontade poderíamos crer que está assimilada.

Analisando os meandros religiosos antigos e atuais percebemos que praticamente todos os ritos e credos se modernizaram ou se extinguiram, resistindo sempre aquela pequena parcela de praticantes que mantinham as velhas tradições aqui e acolá, entretanto o passar das gerações enterrou a absoluta maioria dos credos.

 Notadamente, as principais religiões recentes persistem e se adaptaram para não se extinguirem, e sobraram aqueles que mantinham as velhas tradições aqui e acolá. Curiosamente o que se observa agora é que estes que mantinham as velhas tradições têm crescido de número em todas as religiões.  Esse movimento de fundamentalismo, tirania e opressão que morria com o passar das gerações, hoje em dia renasce no coração de jovens e encontra eco em uma geração inquieta e transicional. Acho que ainda lembramos que em 1990 quase não havia computadores.

       Acredito no respeito por todas as religiões e seus praticantes voltados para o bem. Aqueles que nutrem uma fé pura voltada para o bem das pessoas de todas as religiões merecem respeito, porém parece-me alarmante que na era da tecnologia as pessoas se sintam tão desesperançadas ao ponto de recorrerem a interpretações que menosprezam mulheres, praticam racismo, condenam minorias, extorquem, limitam as liberdades dos quereres das pessoas, com ou sem anuência delas, ou simplesmente as obrigam a ter o instinto de sobrevivência suficiente para serem aceitos, mas ainda nos mantemos na esfera psicológica. Entrando em uma esfera muito mais torpe que constitui uma dura realidade atual, constatamos que pessoas sendo descriminadas, humilhadas, escorraçadas, agredidas e assassinadas por motivos religiosos aumentam todos os dias.   E tudo isso pensando estar fazendo o bem. Será?

          Quando falamos em religião precisamos sempre lembrar que tocamos em terreno complexo, todavia a religião jamais poderá superar a nossa liberdade de pensar, de ser quem somos, sem máscaras e afora dogmas, afinal a diferença entre fazer o bem e o mal até crianças pequenas compreendem. Apenas para ilustrar brevemente a maleabilidade de doutrinas que as pessoas consideram definitivas precisamos lembrar-nos de questões inegáveis.

      Desde sempre as religiões e ritos usaram, proibiram, liberaram, santificaram e demonizaram todos os tipos de psicotrópicos, em algum momento. Até o café já foi proibido. A castidade seguiu o mesmo caminho, e as opções sexuais das pessoas também. Fogo, água, o vinho, o ópio, o cânhamo, o corpo humano, a lua, o sol, todos eles foram deuses, e todos eles foram cultuados e “definitivos”, até que novos cultos surgiram, muitas vezes de acordo com necessidades políticas das aristocracias que, acredito eu, tenham sido quase sempre o instigador de continuidades e mudanças.

 

         Abdico absolutamente de me aprofundar mais nesse assunto específico, entretanto ele estará direta ou indiretamente presente a subsequência do texto que, afinal de contas, é um texto que se propõe a comentar cultura da humanidade, portanto nunca seria coerente faltar referências ao tema central da cultura humana. A religião é a mãe das culturas humanas, mas nunca existiria se não pudéssemos pensar. Pensar livremente. Os seres humanos criaram as religiões e permitiram que elas prosperassem por terem tido liberdade para tal. Continua